Mais um texto vindo do fundo do baú, só que esse é também uma espécie de manifesto contra alguma coisa que está muito clara no texto.

Ponto de tráfico

- Que dia é hoje?

- Não interessa

- Otário

- Dez de julho, tá satisfeito agora?

- Tô - ao dizer isto Martinho pensou "caralho", como um bom representante masculino deve sempre fazer. Terminou de preencher o cheque e o mostrou para Henrique, o traficante:

- Beleza assim?

- Não aceito cheque, quero dinheiro.

- Não tenho dinheiro, só cheque. Faz assim, fica com o cheque como garantia, amanhã eu passo no banco e saco um pouco de dinheiro para te pagar este lance.

- Não dá, devolve o esquema. - Henrique já um pouco irritado.

- Não cara, eu preciso disto, tu sabe bem. Pega o cheque.

- Cara eu não confio em viciados, se tu pudesse ficar um dia sem, eu até confiava em ti, mas assim não há condições.

- Eu nunca deixei de te pagar algo, não te devo nada, além do mais este valor nem é muito grande.

- Não rola, não confio, cheque é baseado na confiança recíproca, não confio em ti, portanto não confio no teus cheques. Martinho passou a mão pela testa que começava a suar, preocupado em como ia fazer, como ia dar vazão ao seu vício.

Pensou em roubar um banco, mas tem muita concorrência hoje em dia. Roubar velhinhas não dava, com o que o governo pagava para elas de pensão chega a ser infrutífero. Pirulitos de criança também não é uma boa idéia, pois até elas estão andando armadas e costumam matar os coleguinhas se não emprestam a borracha.

- Que tal se eu deixo o carro e amanhã eu volto aqui te pago e tu me devolve o carro?

- Ué, pode ser, mas um carro por um maço de cigarros é brabo, né Martinho?

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