Consumidor convicto de mamíferos quadrúpes ungulados
27 Apr 2006
Demétrio estava indo para Porto Alegre, e como estava um pouco curto da grana decidiu pegar um ônibus, não um direto confortável e organizado. Mas um pinga-pinga mesmo. Um Centralão! Ele já ouvira falar deste subproduto perverso da urbanização excessiva, um ônibus que jamais anda em linha reta e que consegue demorar duas horas para cumprir um trajeto de apenas cinqüenta quilômetros, uma media horária de 25Km/h. Quase tão boa quanto a de uma bicicleta.
A parte boa é o preço, míseros dois reais. "hehehe" pensou Demétrio quando pegou o ônibus no início de sua linha, "que barbada, só dois reais". Demétrio estava com sorte, pois não era horário de pico e portanto o carro não deveria superlotar.
Lá pela metade de sua incrível viagem o ônibus começou a encher, a encher muito mesmo e nem era hora de pico, tu vê… Certa hora Demétrio estava com a cara na bunda de um pedreiro, "não devia ter me sentado" pensou ele. Dez minutos depois ele notou que a senhora que estava sentada ao seu lado era incrivelmente velha e gorda se levantar aumentando ainda mais o tumulto. Com um pulo ela se prendeu à multidão, e em particular ao pedreiro bundudo que agora já estava um pouco mais adianta.
Demétrio não acreditava no que via, a velha começou a sugar o sangue do cara e ele nem percebeu. Dois minutos depois de iniciado o banquete, a velha com outro pulo voltou a sentar-se ao lado de Demétrio, mas desta vez com um lado da boca sujo de sangue. Pouco depois de sentar-se ela ainda ofereceu um gole de vinho para Demétrio.
- Não obrigado, eu desço aqui - agradeceu um apavorado Demétrio, e se levantou para sair. Quando quase chegava na porta viu um lugar livre ao lado de outra senhora de idade e se sentou ali. "Eu é que não vou perder minha passagem por causa de ma vampira estúpida" raciocinou ele já começando a duvidar do que vira minutos antes.
A senhora ao seu lado parecia ainda mais velha, muito mais velha na verdade. Ela parecia um ser milenar que já nascera velha e ficaria velha para sempre, como se seu destino fosse ficar cada vez mais velha e decrépita e jamais morrer. Ela era realmente velha, mas mesmo assim teve forças para puxar papo com Demétrio.
- Que calor, né? - disse ela.
- Pois é, janeiro é sempre assim. Quente como o inferno. - respondeu Demétrio
- Janeiro é, pensei que estivéssemos em agosto ou julho. Algum desses meses aí.
- Não é Janeiro, é verão. Por isso que tá tão quente.
- Ah, tá. Tu tá a fim de comer meu cú? - falou docilmente a velhinha decrépita para espanto de Demétrio que tentou acreditar que ouvira outra coisa.
- Não obrigado, eu acabei de almoçar.
- Não é comida não. É foda mesmo, tu queres trepar comigo, aqui e agora? Eu estou queimando por dentro - e a velhinha começou a tirar sua roupa ancestral e revelou três seios murchos pela idade avançada - Vem, deixa eu te chupar.
No que ela põe a mão em seu zíper Demétrio nota que abriu a porta do ônibus e desce correndo. Ao pular da soleira da porta vê a paisagem normal da região metropolitana da Porto Alegre, e quando deveria cair no chão tudo fica preto e Demétrio nunca mais para de cair.
Demétrio está agora voando, ou parado, ou caindo. Sei lá, ele está como se não houvesse nenhuma força da gravidade atuando sobre seu corpo. Entre os sucessivos instantes de total terror ficava pensando em Física, Astrofísica para ser mais exato. Pensou que os astronautas russos que passavam longos períodos de tempo no espaço ao voltar para terra mal podiam respirar de tão deteriorado o seu corpo. Demétrio imaginou que mais de um mês naquela situação ele não poderia jogar bola por algumas semanas pelo menos. O chato do espaço vazio é a total falta de sentidos, nada se vê, nada se ouve, nada se toca, nada se sente.
- Humm, Humm - resmungava Demétrio enquanto a velha ninfomaníaca lhe beijava a face para acordá-lo. - O que tá acontecendo? - perguntou ele, melhor, gritou ele.
- É só amor - devolveu a velha que agora dava para ver, poderia ser a bisavó de Mun-Rá, o ser eterno, - Deita aí, que eu estou tirando tua calça.
Demétrio não levou a sério a ordem e tentou levantar-se e sair correndo. Conseguiu se levantar, mas tombou e viu sua calça arriada nos tornozelos. Num golpe digno de filme americano chutou a velhinha ninfomaníaca que vinha tentar chupá-lo e se levantou em questão de segundos, levantou suas calças, tentou sair correndo do muquifo onde se encontrava mas ao abrir a porta deu de cara com a vampira idosa do centralão.
- Não!!! Isto é o inferno! - Ele berrou com toda a sua juventude rebelde, esperando que as velhas exóticas lhe tivessem compaixão, o que ocorreu de fato. A vampira lhe abriu a porta e começou a rir quando ele passo por debaixo do marco.
Havia nada no lado de fora da casa, só nada. Uma escuridão digna de pesadelo mal resolvido e Demétrio voltou a cair, desta vez acordado, acreditava ele, pois o nada era diferente agora, parecido com um fluído, um líquido de ar ou algo assim. Ao voltar o corpo na direção do muquifo viu a porta e as duas velhas lhe sorrindo "Vem, vem". Nao Obrigado pensou ele, e começou a nadar na direção oposta pelo nada-oceano.
A medida que se distanciava da porta descobria que o nada-oceano era mais povoado do que sua primeira idéia, havia portas de todos os lados. Demétrio estava em dúvida do que fazer, então fez qualquer coisa, nadou um pouco mais e bateu na terceira porta à direita. Um entregador de pizza lhe atendeu a porta "Quatro queijos e Calabresa, cortesia da casa". "Beleza", raciocinou Demétrio, fome pelo menos não passaria no nada-oceano.
Jogou sua pizza para cima e nadou atrás dela, pois não iria comer na frente de uma porta e é complicado nadar cachorrinho no nada-oceano só com uma mão. Demétrio gostou de sua pizza de graça, claro quem não gosta de coisas de grátis. Mas agora precisava dar um jeito de sair dali, o problema é que não sabia como havia chego ali e portanto voltar passa a ser um problema considerável. Foi abrindo todas as portas, e em todos ganhava alguma coisa de cortesia, guarda-chuvas, canetas, tacos de golfe, CD´s de conexão à internet do UOL, Terra e AOL.
Depois de checar a sua centésima porta, ou qüinquagésima terceira, na verdade pouco importa, pois era uma pancada de portas para se nadar e abrir, ainda mais com uma montanha de brindes que não parava de crescer. Os brindes já eram coisas tão inúteis que Demétrio nem se interessava mais em abrir as portas, o fazia mais na esperança de encontrar mais uma pizza.
Cansado abriu a última porta e sua mãe atendeu. Ele estranhou a presença e lhe disse: mãe? O que tu tá fazendo aqui?
No que sua mãe respondeu já acostumada:
- Como assim? O que é essa montoeira de brinde? Eu já não te disse para parar de tomar ácido guri!!!
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Uma Ceva for "O Centralão"
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