Consumidor convicto de mamíferos quadrúpes ungulados
6 May 2006
Era uma vez um pai de família bem-sucedido financeiramente, aparentemente tudo havia dado certo, sua perfeição escondia uma agonia bizarra e um desejo mórbido. Seu nome, como todos, era José dos Santos, morava em uma casa suburbana ao estilo de todas as outras, vivia como todos os outros, pensava como todos os outros, se parecia com todos os outros, ele era como todos os outros e isso lhe agoniava profundamente. Ás vezes tinha vontade de destruir, pois até hoje apenas construiu, tinha vontade de morrer, pois até hoje só havia nascido, queria matar, pois até hoje só havia gerado.
Num dia de verão como qualquer outro iria visitar um amigo seu, não um grande amigo mas apenas um amigo como qualquer outro que sempre tivera. No dia decidiu que seria útil carregar sua arma consigo, o que não fazia normalmente. Por medida de segurança levou a arma descarregada. Suas razões eram estranhas e não levou munição, seus planos estavam definidos em seu subconsciente.
A casa de seu amigo era uma bela cobertura no centro da cidade, como outras tantas, havia. Próximo à ela, numa outra cobertura havia um restaurante muito bem freqüentado, inclusive por ele e seus familiares, o qual se encontrava com boa lotação no dia.
Chegou ao prédio, pediu ao porteiro licença para subir, este não podia dá-la senão mediante a mando do morador, o que era muito normal na cidade. Entrou pelo hall de entrada ar ali parecia congelado no tempo, era como se Deus estivesse lhe falando no ouvido, talvez não fosse Deus. O elevador demorou a chegar, enquanto isso a decoração do lugar deprimia José, o lugar aparentava alienação e estagnação, niilismo, não se sentia nada e nada, simplesmente nada.
O painel do elevador tinha dezoito botões, José escolheu o último, onde seu amigo morava. A aceleração desenvolvera uma nova sensação em José, como Maomé e Jesus Cristo, ele, um simples mortal subia aos céus, imaginava como seria, anjos tocando órgão, santos dançando ao vento do universo, Deus sentado em seu trono entediado.:
Quando chegou a filha de seu amigo atendeu a porta, o sinal de Deus trombeteou em seus ouvidos, a loucura tomara corpo, consciência era uma breve memória de uma mente insana.. O raciocínio lhe havia deixado de lado, José era agora apenas um serial killer como outro qualquer
Levantou a arma e mandou todos à varanda, seu amigo, a mulher de seu amigo e filhas. As vítimas apavoradas obedeceram, seu amigo desconcertado achava que se tratava de uma brincadeira, o destino, no entanto, não é brincalhão. Um soco nos lábios e sangue escorrendo lhe fizeram mudar de idéia.
O assassino mando então que sentassem nas cadeiras dispostas sobre a cobertura, ao seu amigo lhe ordenou que arranjasse uma corda e foi prontamente atendido. Mandou-lhe que sentasse também, e amarrou-lhe na cadeira, assim como o resto da família. Seu amigo ficava perguntando por quê, para quê. As respostas não lhe saiam da boca.
No restaurante alguns comensais começaram a ficar curiosos diante de espetáculo tão macabro, pedindo pela presença do garçom, o alvoroço havia se formado, a polícia havia sido chamada. O tempo, nobre Deus, não colaboraria com a moral e os bons costumes.
Empurrando as cadeiras com os viventes gritando, José não sentia nada, aliás havia se esquecido de como se sente. Aproximando as cadeiras da murada de proteção, Deus batia seu coração e Satã controlava a mente. A primeira vítima foi a filha mais nova, mais leve e portanto mais fácil de levantar sobre a murada.
Para horror da clientela do restaurante a queda fora horrível, uma menina de doze anos apenas, impulsionada pela gravidade, atingiu velocidade máxima próxima ao solo. Seus gritos estariam presentes por vários pesadelos de aquela gente até o fim de suas vidas. No chão o sangue escorrendo por entre as pedras do calçamento. Ó triste fim de uma vida breve.
A segunda vítima fora a filha mais velha, a sensualidade transpirando junto ao horror da morte prematura, a morte por aceleração gravitacional. Ela não caíra presa à cadeira, conseguira-se libertar-se antes, mas não a tempo, seu pai chorava e jurava vingança, sua hora, no entanto, havia de chegar.
O resgate havia chego, a polícia já havia aportado no prédio e começara sua escalada ao topo, o elevador não colaborara também. Ao tempo de defenestrar a terceira vítima a cavalaria entra no apartamento. José aponta-lhes a arma e eles recuam.
Ainda houve tempo de jogar a última pessoa ao solo antes da própria morte, cinco tiros perfuraram o peito de José, rasgando-lhe os pulmões e o coração. Seu amigo torcera para que alguns daqueles tiros lhe houvesse atingido, assim não precisaria viver sem sua família por muito tempo. A sorte lhe faltou ele amaldiçoou aqueles breves minutos que foram suficientes para arrasar com sua vida.
O restaurante a esta hora cheirava a vômito, e no meio da multidão se ouvia choro, o filho de José a tudo assistira e agora chorava o choro dos inocentes. A vida é breve, uma pitada de insanidade a deixa ainda mais curta.
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