Gerivaldo Antunes Maria da Costa baleou seu melhor amigo Alencarino de Jesus na noite de ano novo no quintal da sua casa em Alvorada ou Canoinhas. Os dois não haviam discutido, nem brigado de nenhuma forma. Mas bebido mitológicamente e feito uma aposta, Gerivaldo assegurara que conseguiria acertar uma bala num copo de pinga sobre a cabeça* de Alencarino, que duvidou. Apostaram simbolicamente um real, pois o interessante não é o dinheiro, mas a honra de ter vencido uma aposta besta e sem sentido.

Evidentemente Gerivaldo errou, mas para não aceitar a derrota disparou um segundo tiro que também se perdeu, um terceiro e um quarto que acertou em cheio a testa do amigo, e o copo caiu na grama e não se quebrou. Gerivaldo chorou, chorou e foi preso no sétimo dia do novo milênio. Julgado, sua sentença foi o Carandiru ou qualquer outro presídio de São Paulo em regime de segurança mínima, pois seu único crime foi matar o melhor amigo.

Preso em cela de dez metros quadrados com mais quatrocentos presos de todas as raças, religiões e sexos com exceção do feminino, Gerivaldo foi estuprado, estuprou e jogou xadrez em pé, pois não havia espaço nem para sentar na cela superlotada, todas as manhãs com um ex-assaltante de bancos. O jogo se tornou tão importante para ele que em troca de favores sexuais conseguiu uma assinatura anual de uma revista especializada em xadrez penitenciário.

Após três anos e duzentos e cinqüenta dias Gerivaldo foi solto junto com seu tabuleiro já gasto de tanto jogar, comprou uma passagem para voltar à sua terra natal a mais de mil quilômetros de distância do Carandiru. Sentou-se ao lado de uma velha decrépita que aparentava cento e cinqüenta anos de muito tricô e novela das oito, surpreendentemente a velha era uma antiga mestre enxadrista e pode reconhecer em Gerivaldo o Talento de um Kasparov qualquer.

Não cabendo em si de tanta felicidade, pois voltaria para casa rever sua família e a família de Alencarino, sua vítima, saiu abraçando todos no ônibus inclusive o esquelético motorista que começou a gritar ao ser espremido pelos braços possantes de Gerivaldo, o ex-presidiário futuro mestre enxadrista, e perdeu o controle do ônibus. O veículo foi para fora da estrada, girou pela terra, girou sobre um rio e bateu numa pedra.

Milagrosamente ninguém se machucou, com exceção de Gerivaldo que não estava na segurança de seu assento e voou através do pára-brisa atrás de sua felicidade recém perdida de novo.

* tem gente que realmente faz esse tipo de apostas…

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