Concorde comigo ou esteja fatalmente errado
19 Aug 2006
PARTE 1 – onde
… frondosa, cheia de galhos, folhas e pipas presas aos ramos. Se vegetais tivessem olhos já teria visto de tudo. Tudo mesmo. Até um carro atropelar uma vaca que ao cair juntou-se ao motorista no banco de passageiros. Já não dava mais frutos pois estava muito cansada, tampouco fazia sombra, pois seus galhos se estendiam somente sobre suas raízes expostas. Fazendo com que qualquer pessoa interessada em abrigar-se sob sua copa sentir-se-ia o presunto num sanduíche de salada verde.
Entre suas raízes havia até uma piscina natural com lambaris e tudo. Era uma árvore realmente grande, e parecia ainda maior para as crianças que nela vinham brincar durante os meses quentes do ano, que não eram poucos. Elas pulavam de raiz em raiz, de galho para raiz, de raiz para galho, etc. Seus intrincados labirintos vegetais podiam enganar pessoas durante horas, e havia até mesmo guias autorizados a caminhas pelas raízes mais obscuras próximas ao tronco. Muitas pessoas viviam da árvore, apesar dela não dar frutos nem sombra.
Em volta da árvore havia uma vila pequena, mas acolhedora. Com ladrilhos de pedra, tijolos de cerâmica e nada de madeira, pois os habitantes não queriam desagradar a mãe natureza que em lugar algum é tão identificável. Ali a natureza era a árvore, e toda a riqueza provinha da árvore, pois na vila nada se produzia a não ser diversão em volta da árvore.
Na vila havia um hotelzinho de poucas estrelas, pois lugar de estrela é no céu e não na Terra. O hotelzinho tinha poucos quartos, uma dezena talvez com duas camas em cada um e um quarto especial para casais que era alugado por hora para amantes excitados pela árvore do povoado.
A fama da árvore era nacional, todos conheciam que naquela vila próxima de lugar nenhuma havia a maior árvore do mundo, onde se podia perder coisas, pessoas e até sentimentos. Constantemente a árvore era notícia, pois muitos lunáticos a tentavam cortar.
PARTE 2 – quem
Um dia no início de um mês do fim do ano chega à vila uma família em um carro velho mas bem intencionado. Não se hospedam em lugar algum, pois a grana está curta. O pai disse à sua mulher e filha no dia anterior: “Vamos sair de casa bem cedo, passear pela árvore e no final da tarde a gente volta para casa, tá?”. Suas mulheres concordaram com seus planos e assim saíram de sua cidade antes do sol nascer.
Ao chegar à gigantesca e bela árvore a criança diz “Uau, como é grande!” no que o pai devolve “é a maior massa vegetal individual do mundo, dizem que tem mais de dois mil anos”. A família estaciona o carro bem longe da colina onde se encontra a atração, pois não queriam pagar estacionamento. “Fica mais divertido assim” disse o pai, a mãe só grunhiu e reclamou como ele era sovina.
Depois de caminhar quase dois quilômetros para chegar à uma das bases da árvore, um representante do sindicato de guias arbícolas do município se ofereceu para levá-los para um passeio por m preço módico que equivalia a dez vezes o estacionamento. É claro que recusaram por motivos financeiros, não pessoais. O representante ainda lembrou que não era permitida a visita por pessoas sem guia ou não autorizadas. È perigoso, ele ainda conseguiu emendar antes da família parar de escutá-lo por opção.
- Vamos lá então. A galinha com farofa tá contigo, né bem? O refrigerante comigo e nós vamos lanchar do lado do tronco hoje.
PARTE 3 – o quê
Antes de começar a passear pelas raízes ainda advertiu suas duas mulheres para que cuidassem, pois as raízes poderiam estar escorregadias e mesmo podres. Depois de caminhar por duas horas a fio em direção do tronco, não havia ninguém por perto. Num determinado lugar as raízes tocavam a copa e vice-versa, fazendo com que ficasse muito escuro. “Vamos adiante” incentivava o pai, indiferente ao cansaço de sua filha e esposa.
Devido a exaustão em que se encontravam, as duas pararam para descansar um pouco, mas o diligente e excitado pai continuou sua histórica caminhada pelo vegetal monstruoso sem dar atenção aos gritos de “Vamos descansar um pouco”. Elas começaram a comer a galinha e a gritar como estava boa para ver se conseguiriam chamar a atenção do intrépido líder da caminhada.
Um pouco depois de começarem a falar aquilo se preocuparam pois ele não dava sinal de estar voltando. Nem de estar continuando, havia desaparecido em algum lugar entre a copa e as raízes aéreas. Continuaram comendo, pois ele saberia onde estavam e voltaria assim que se desse conta de que estava só.
O solitário andarilho das raízes caminhou ainda por dez minutos depois que se separou de sua filha e de sua esposa. Olhou para trás, nada. Gritou, nada. Só raízes, copa, algumas poças de água parada a muito tempo. Mas nada de gurias, nada de companhia. O silêncio total do momento o preocupou. “Onde estarão elas” pensou, pouco depois começou a gritar por elas. A chamar por elas, mas ninguém respondia, nem os pássaros cantavam tão para dentro da árvore. Por dois minutos ficou gritando e ensaiou voltar para procurá-las, mas o caminho estava diferente. Ao virar numa estranha esquina formada por uma barreira de raízes aéreas, elas apareceram para ele. “Ufa, pensei que as tivesse perdido! Que tal se agente comesse agora a galinha com farofa?”
PARTE 4 – como
Elas não lhe responderam, simplesmente cochicharam, sentaram-se e abriram a sacola com a comida. O pai não interpretou nenhuma ação mal, considerou que elas estivessem brabas com ele por as ter deixado no caminho e por iso não conversaram com ele. Ao estender o braço para dentro da sacola esperava tirar ma perna de galinha. Tirou a mão de sua filha ainda ensangüentada.
O líquido escorreu pela mão até seus dedos, e sangue de seu sangue em contato com sua pele o deixaram em estado de choque. Rapidamente procurou pela mão direita de sua filha, mas não a encontrava em seu braço. Como um bom pai que era, a pegou no colo e saiu correndo para levá-la num hospital implantar o membro perdido. Não reparara que sua mulher também estava maneta e não parecia preocupar-se muito com isto.
As duas mulheres comeram a galinha com farofa, gritaram um pouco mais por seu pai e esposo, mas como não obtiveram resposta decidiram voltar para conseguir ajuda. A volta foi mais fácil, pois sem o apressado líder que sempre buscava o caule, foram caminhando e zigue-zague pelo caminho mais confortável e conseguiram achar a saída em incríveis quinze minutos. Estava provada a incompetência do pai em caminhar em árvores gigantescas.
Ao chegar gritaram por socorro, logo o sindicato dos guias se dispôs a encontrar o chefe de família perdido. Procuraram em três grupos auxiliares de três pessoas e um principal de cinco onde faziam parte mãe e filha. Procuraram até pouco antes do pôr-do-sol e nada encontraram. As duas foram hospedadas na casa de um guia mais hospitaleiro e no dia seguinte seguiram-se as buscas.
Ao redor do meio dia o rádio irrompeu em gritos de um dos grupos auxiliares “Ele tá aqui! Ele tá aqui! Vai precisar de uma ambulância, vamos tirá-lo agora”. Os outros grupos em questão de poucos minutos saíram da floresta de uma árvore só e esperaram pela volta dos achadores do perdido e pela ambulância que viria de uma cidade vizinha. Vinte minutos depois da chegada da ambulância o grupo encontra a saída e então todos puderam ver o pai de família mudo, sem as duas mãos, sem os dois pés e com todos os cabelos da cabeça esbranquiçados pela noite embaixo da árvore mais linda do mundo.
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